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domingo, 7 de outubro de 2007

Quem morre? - Pablo Neruda


Quem morre?





Pablo Neruda




Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,

repetindo todos os dias o mesmo trajeto,

quem não muda de marca,

não arrisca vestir uma cor nova

e não fala com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão seu guru.

Morre lentamente quem evita a paixão,

quem prefere o negro sobre o branco

e os pingos sobre os “is” a um redemoinho de emoções,

justamente as que resgatam os brilhos dos olhos, sorrisos dos

bocejos, corações a tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no

trabalho,

quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,

quem não se permite pelo menos uma vez na vida,

fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deseja

ajudar.

Morre lentamente, quem passa os dias

queixando-se do azar ou da chuva incessante.

Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de inicia-lo,

não perguntando de um assunto que desconhece

ou não respondendo quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em suaves cotas, recordando sempre que estar vivo

exige um esforço muito maior do que o simples feito de respirar.

Somente a ardente paciência fará

com que conquistemos uma plena felicidade.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Na cabeça de Iago e Lud - Traumas sanados

O Poço

Pablo Neruda


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.


Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?


Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.


Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.


Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.


Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.