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sábado, 14 de julho de 2007

A Reconstrução - Mário Faustino

A Reconstrução

Mário Faustino


(...)

E nos irados olhos das bacantes

Finalmente descubro quem procuro.

Não eras tu, Poesia, meras armas,

Pura consolação de minha luta.

Nem eras tu, Amor, meu camarada,

Às costas me levando, após a luta.

Procurava-me a mim, e ora me encontro

Em meu reflexo, nos olhares duros

De ébrios que me fuzilam contra o muro

E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens

Defronte mãos escrevem numa estranha,

Antiquíssima língua estas palavras

Que afinal compreendo: toda vida

É perfeita. E pungente, e raro, e breve

É o tempo que me dão para viver-me,

Achado e precioso. Mas saúdo

Em mim a minha paz final. Metade

Infame de homem beija os pés da outra

Diva metade, enquanto esta se curva

E retribui, humilde, a reverência.

A serpente tritura a própria cauda,

O círculo de fogo se devora,

Arrasta-se o cadáver bem ferido

Para fora do palco:

este cevado

Bezerro justifica minha vida

domingo, 20 de maio de 2007

Mário Faustino

Sinto que o mês presente me assassina

Mário Faustino




Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.


Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.


LINK: http://www.secrel.com.br/jpoesia/mf.html