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sábado, 14 de julho de 2007

E se eu disser - Ivan Junqueira

E se eu disser



Ivan Junqueira



E se eu disser que te amo - assim, de cara,

sem mais delonga ou tímidos rodeios,

sem nem saber se a confissão te enfara

ou se te apraz o emprego de tais meios?


E se eu disser que sonho com teus seios,

teu ventre, tuas coxas, tua clara

maneira de sorrir, os lábios cheios

da luz que escorre de uma estrela rara?


E se eu disser que à noite não consigo

sequer adormecer porque me agarro

à imagem que de ti em vão persigo?


Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro

em tua ausência - essa lâmina exata

que me penetra e fere e sangra e mata.

sábado, 16 de junho de 2007

Ivan Junqueira - Esse punhado de ossos


Esse punhado de ossos



Ivan Junqueira

A Moacyr Felix



Esse punhado de ossos que, na areia,

alveja e estala à luz do sol a pino

moveu-se outrora, esguio e bailarino,

como se move o sangue numa veia.

Moveu-se em vão, talvez, porque o destino

lhe foi hostil e, astuto, em sua teia

bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia

o que havia de raro e de mais fino.

Foram damas tais ossos, foram reis,

e príncipes e bispos e donzelas,

mas de todos a morte apenas fez

a tábua rasa do asco e das mazelas.

E ai, na areia anônima, eles moram.

Ninguém os escuta. Os ossos choram.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Ivan Junqueira - A Sagração dos Ossos

“A sagração dos ossos”


Ivan Junqueira



Meu filho sobe a escada
Seu passo é miúdo e rápido;
A voz, quase cantábile,
voz de pássaro, álacre.


As mãos logo de esgalham
e os dedos, duendes frágeis,
bailam sobre o teclado,
Ou então, com seu lápis,
conjuga cores e imagens.


Leva sempre nos braços
uma esfera terráquea
de que emergem, fugazes,
rios, montes e várzeas.
Meu filho é artista ou mágico?



(Para o meu querido Lua)

terça-feira, 8 de maio de 2007

Ivan Junqueira - Talvez o vento saiba

Talvez o vento saiba


Ivan Junqueira



Talvez o vento saiba dos meus passos,

das sendas que os meus pés já não abordam,

das ondas cujas cristas não transbordam

senão o sal que escorre dos meus braços.


As sereias que ouvi não mais acordam

à cálida pressão dos meus abraços,

e o que a infância teceu entre sargaços

as agulhas do tempo já não bordam.



Só vejo sobre a areia vagos traços

de tudo o que meus olhos mal recordam

e os dentes, por inúteis, não concordam

sequer em mastigar como bagaços.

Talvez se lembre o vento desses laços

que a dura mão de Deus fez em pedaços.

Link: http://www.secrel.com.br/jpoesia/ivan.html