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sábado, 1 de dezembro de 2007

SALA DAS MULHERES DE PARTO

Para Iago que acaba de encerrar seu estágio em Ginecologia e Obstetrícia


SALA DAS MULHERES DE PARTO




Gottfried Benn



Mulheres mais pobres de Berlim
-em quarto e meio treze filhos,
reclusas, putas, marginais-
gemem aqui, ventre a torcer-se.
Em parte alguma se uiva assim.
Em parte alguma à dor, desdita,
mais indiferença pode ver-se,
aqui há sempre algo que grita.


'Mulher, avie-se! Tá a perceber?
Não está aqui para o prazer.
Nem deixe as coisas arrastar-se
se nesse parto vai borrar-se!
Não está aqui para o descanso.
Não vem por si. Dê-lhe um avanço!'
Ei-lo: pequeno e arroxeado.
De fezes e mijo vem untado.


De onze camas, sangue e choro,
sai gemedeira em saudação.
Só de dois olhos rompe um coro
de aleluias que ao céu vão.


Tudo esta peça de carne há-de
conhecer: dor, felicidade.
E se o estertor um dia exala
inda há mais doze nesta sala.


(trad.Vasco Graça Moura)

http://www.secrel.com.br/jpoesia/ag15benn.htm

Homem e mulher visitam o pavilhão dos cancerosos

Homem e mulher visitam o pavilhão dos cancerosos



Gottfried Benn


Homem:

aqui, estas fileiras são dos ventres cancerosos

e esta fileira dos seios cancerosos.

Leito por leito fétido. As enfermeiras se revezam de hora em hora.

Venha, pode levantar esta coberta.

Olhe, este amontoado de gordura e secreção pútrida,

já foi antes tudo para um homem

e significava também sussurro e pátria.

Venha, olhe para esta cicatriz no peito.

Está sentindo o relevo macio e branco?

Pode tocá-lo, a carne é macia e não dói.

Aqui, esta sangra como trinta corpos.

Ninguém tem tanto sangue assim.

Aqui, desta tiveram que tirar primeiro

uma criança de dentro do ventre carcinomatoso.

Deixam-nas dormirem. Dia e noite. -Às novas

se diz: aqui se dorme até ficar sã. -Só aos domingos

deixam-nas um pouco conscientes, para a visita.

Alimento é pouco ingerido. As costas

estão em chagas. Você vê as moscas. De vez em quando

a enfermeira as banha, como se tivesse lavando bancos.

Aqui, por cada leito o túmulo incha

Carne nivela-se com a terra. A energia se esvai.

Sangue escorre incessante. A cova chama.